17º Aniversário Solas Rotas

2ª Grande Rota: Geira Romana

A GEIRA- ESTES ROMANOS SÃO LOUCOS

Foi com entusiasmo que foi organizada e concretizada a II grande rota do nosso grupo: a GEIRA ROMANA.

Tão difícil como completar os quase 50 km em dois dias, vai ser agora descrever o nosso pequeno passeio em duas penadas. Mas nós não somos fáceis de vencer portanto, comecemos…pelo princípio. Devo dizer que as corajosas solas que abraçaram este desafio, foram munidas desde o início com a poção mágica, feita a preceito pelo nosso druida, à excepção de alguns elementos que em pequenos caíram no caldeirão de poção e como tal se encontravam proibidos de beber uma gota sequer .Ah desculpem… isto não é o Asterix

Portanto, após uns mililitros de poção da coragem, lá empreendemos nós a rota dos Romanos para chegarmos à conclusão de…, estes romanos são loucos!

A GEIRA ROMANA ou a VIA NOVA ou ainda Via XVIII era uma estrada romana que ligava duas importantes cidades do Noroeste da Península Ibérica: Bracara Augusta, actual cidade de Braga, em Portugal e a cidade de Asturica Augusta, hoje Astorga, em Espanha. Era uma estrada com cerca de 318 km e foi inaugurada no final do século I d.C., por volta do ano 80. Foi uma via de acesso importante para fins militares e comerciais e que depois do fim do império romano continuou a servir as gentes do norte do país, desta feita cristãos. Assim, junto a marcas longínquas colocadas pelos romanos, temos também marcas do cristianismo, que ali foram edificadas mais tarde, nomeadamente capelas e cruzeiros.

A nossa Rota teve início em Paredes Secas, perto de Amares, onde o grupo deixou os carros.



Dividimos o percurso em dois dias: o primeiro levou-nos de Paredes Secas a Covide onde pernoitámos e o no segundo dia, partimos de Covide e marchámos até Lóbios, já em terras dos “nostros hermanos”, onde terminámos a nossa aventura.


GEIRA ROMANA PARTE I: PAREDES SECAS a COVIDE

Foi logo no início, ainda em Paredes Secas e junto de uma pequena capela que encontrámos a nossa primeiro miliário. Para quem não sabe, um miliário é um marco em pedra, cilíndrico, com inscrições romanas sobre a localização e a distância à cidade mais próxima, mais ou menos uma placa dos nossos dias. A distância que separa os diversos miliários é como o nome indica, mais ou menos uma milha, pelo que assim lhe abreviámos o nome e passámos a chamar-lhes milhas. Foi então nessa primeira milha que tirámos a nosso foto da praxe: a foto de grupo. Esta primeira milha corresponde à milha XII do percurso.



Depois de uma voltinha à capela seguimos em direcção a um bosque, onde predominavam os eucaliptos.



Serpenteámos no meio do arvoredo até à pequena povoação de Santa Cruz, onde encontrámos miliários, cruzeiros, uma capela e uma placa com algumas indicações sobre a Via Nova.





Continuámos, sempre bem acompanhados de uma bela paisagem, correndo milha a milha, todas diferentes, encontrando sempre também marcas do cristianismo. Cada milha estava assinalada com uma placa de vidro (ideias de arquitecto) bonitas mas difíceis de conservar, algumas já vandalizadas.



O piso alternava entre trilho de terra batida e troços empedrados , de pedras polidas e gastas… por muitas sandálias romanas!! A milha XIV surpreendeu-nos pela quantidade de miliários, sete. Já cansadas, algumas das solas aproveitaram os marcos para descansar….



A uma velocidade de cerca de 5 km/h (velocidade alucinante) enveredámos por entre o arvoredo, sempre guiados pelos miliários, pelas placas de vidro e umas de ferro oxidado que também assinalavam o percurso.



Foi já esgalgados de fome e capazes de comer um Javali que finalmente fizemos uma pausa um pouco mais demorada para recarregar baterias. À sombra de um alpendre de mais uma pequena capela, a Capela de S. Sebastião, já depois da milha XV, recuperámos forças e esvaziamos um pouco as mochilas do peso do farnel.



Não nos faltou como já é habitual o contacto estreito com a fauna e flora dos diversos locais por onde passámos.


Por terras de Bouro trocámos olhares com os nossos amigos garranos e com as habituais vaquinhas e outros animais...


Da flora, diversa, estivemos constatemente rodeados de carvalhos e castanheiros, este últimos carregados de ouriços.

Já perto de Covide, a Via Nova encontrava-se interrompida por obras locais, o que nos dificultou a tarefa obstinada de continuar pela velha estrada ao invés de seguir pelo alcatrão dos nossos dias.



Entre silvas lá subimos a custo, mas rapidamente percebemos que não tínhamos alternativa senão calcorrear a distância que nos separava do merecido descanso pela estrada de alcatrão.



Surgiu então Covide, com a serra da Calcedónia por trás. E foi aí que o caminho começou a pôr os nossos ânimos e os nossos pés à prova. Já com mais de 20 km passados, começava a sentir-se o cansaço. Foi também ai que começou a “ saga dos cafés”, é que o nosso abrigo estaria supostamente situado a 2km de um café. Com os pés a refilar, o grupo contou um…dois… três cafés, que sucessivamente nos fizeram pensar…. Que só faltavam 2 km.

Foi com 27 km passados, uma bolhas, um desmaio e muita satisfação que chegámos ao local onde passaríamos a noite.


Entre banhos, preparação do jantar, o repasto, uns curativos, e muita conversa rapidamente anoiteceu.



Extenuados mas felizes, lá trepámos para os beliches à espera do merecido descanso.


Com música de fundo…( vários tipos de ressonar!) , com algumas insónias e muito cansaço passou-se a noite.


GEIRA ROMANA PARTE II: COVIDE a LOBIOS
Segundo dia da nossa aventura. Estremunhados, com cabelos em pé e completamente ensonados, fomo-nos arrastando para o refeitório, onde nos esperava um pequeno-almoço digno de um hotel 5 estrelas, graça à ajuda preciosa da Catarina e do Hugo, que providenciaram os viveres necessários á nossa empreitada. Já mais acordadinhos e de novo animados partimos rumo ao Campo do Gerês.



Aqui encontrámos um miliário emblemático da junção de crenças que se assiste ao longo da Geira. Vemos um miliário romano transformado em cruzeiro: o cruzeiro do campo do Gerês.



O ponto de interesse seguinte, Vilarinho das Furnas, aguardávamo-nos impávida, paciente. Foi ao chegar a Vilarinho, depois do observatório de aves,



que o grupo se desviou involuntariamente da velha Geira, mas como todos os caminhos vão dar a Roma…ou melhor á Geira, o desvio forçado permitiu-nos observar a albufeira de Vilarinho das Furnas numa perspectiva fabulosa.



Maravilhados com os reflexos das montanhas despidas no azul escuro da lagoa, lá encontrámos de novo, o caminho certo.



Contornámos depois a albufeira pela sua margem direita...




e depois de uma quase prova de escalada, subimos até a um estradão.




Foi por este estradão que seguimos, depois de uns minutos a recuperar o fôlego da subida até chegarmos a a uma ponte sobre o Ribeiro do Sarilhão, onde decidimos almoçar.



Estávamos já muito perto da Mata de Albergaria, uma mata a lembrar as criaturas mágicas do bosque como elfos e duendes, no meio de fetos, árvores centenárias (essencialmente carvalhos e faias), caminhos ladeados de pedras forradas a musgo.



Com locais onde a luz do sol espreita curiosa mas apenas se consegue insinuar! Local privilegiado do parque Natural da Peneda Gerês, onde nem tudo é permitido, como por exemplo fazer piqueniques, de forma a tentar manter intacta esta jóia do nosso património natural. Passámos por várias ribeiras e riachos entre as quais a ribeira do Pedredo e o rio Maceira. Neste último alguns elementos do grupo não resistiram em refrescar os pés na água fresca a cristalina.



Sobre esses cursos de água restam ainda alguns vestígios das pontes que outrora ali existiram, agora substituídas por pontes de madeira.


Foi também na Mata de Albergaria que encontrámos algumas pedras ranhuradas, na sequência dos métodos arcaicos dos romanos para tentar partir as pedras para as suas obras de arquitectura. Não nos podemos esquecer que ao longo do caminho fomo-nos cruzando com os diversos miliários, estávamos agora na milha XXXIII. Avistámos sobre ponte as cascatas de Albergaria,



a chamar para um mergulho e por perto a casa da Guarda Fiscal a impor algum respeito. Pouco depois passámos a vau o quase inexistente rio homem,



tendo por fundo uma ponte recentemente construída, muito bonita, mas que ainda não leva a lado nenhum.



Já não falta muito para a Portela do Homem e para a fronteira. Foi na fronteira que decidimos parar para comer mais uma bucha, e descansar um pouco.



Os pés já se queixavam dos dois dias de caminhada! A partir daqui, entrámos no país vizinho, já os pés andavam sozinhos sem que a cabeça os acompanhasse.




Embora a Geira continuasse Espanha dentro, o nosso destino estava por perto. A dada altura Lobios começou a surgir ao longe, como que no outro lado da montanha. A esperança e a vontade de um banho nas piscinas de água quente fez com que os nossos pés ganhassem asas.



Rapidamente, e sempre com uma paisagem fantástica em redor, chegámos finalmente ao nosso destino: Lobios. O que vos digo: foi uma aventura inesquecível, com um grupo fantástico e...estes romanos são loucos….

Mais Informação (em atualizaçao):
  • Percurso: Geira Romana (Via Nova)
  • Local: Amares - Terras de Bouro - Lóbios
  • Partida/Chegada: Paredes Secas - Torneiros (Lóbios)
  • Tipo: Linear
  • Distância: 50 Km
  • Duração: 11h 50m (real)
  • Grau: Moderado
  • Sinalização: Existente em Terras do Bouro
  • Pontos de Água: Sim
  • Exposição Solar: Média
  • Pontos de Interesse: Caminho, Serra da Peneda, Albufeira Vilarinho das Furnas, Mata de Albargaria, Portela do Homem, Piscinas Àgua quente (Torneiros) Lóbios
  • Participantes: Sérgio, Jorge, André, Carlos, Dores, Carla, Sofia, Rodrigo, Pinheiro, Paulo, Rosária, Sergio Silva, Alexandra, Rui, Teresa, Cristina, Sónia, Rocha, Ricardo, Vitor, Catarina, Francisco e Hugo, Kati (logistica)
  • Dicas: Água, roupas adequadas às condições atmosféricas, bastão
  • Mapa: ...
  • Organização: Solas Rotas
  • Outras informações: www.serra-do-geres.com, www.cm-terrasdobouro.pt
  • Mais trilhos: Aqui

Comentários

  1. Parabéns pela descrição! Realmente foi uma aventura muito divertida, com o seu "quê" de aventura e boa disposição!

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  2. Como sempre, um relato mágico das nossas extraordinárias aventuras. :)

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  3. Mais uma descrição...igual à caminhada(5 estrelas)

    A descrição é sempre bom para relembrarmos daqui a uns 50 anos, as pequenas caminhadas que fizemos (50km), porque nessa altura já estaremos a atravessar a Europa.

    Parabéns SR* Alexandra por mais uma excelente descrição.

    * (Solas Rotas) Para não haver mal entendidos... com estes "pestaninhas" somos logo censurados

    Saudações Pedestres

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  4. Uma descrição que mistura informação relevante sobre a Via Nova Romana e a aventura fantástica em que o grupo participou, tudo isto temperado com humor qb. Uma das melhores descrições do blogue. Parabéns.

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  5. Obrigada a todos e fico feliz por terem gostado. Serviu-me de inspiração o caminho e o fantástico grupo que participou. Espero que venham mais percursos destes para depois relembrar!!

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  6. Olá

    Fiquei fascinado com a descrição. Estou a pensar fazer algo igual. Como conseguiram (conseguirei) o contacto do refúgio de pernoita em Covide?

    Um abraço caminheiro

    Antonino Silva, Coimbra.

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  7. Boas Amigo

    Poderá retirar o contacto deste endereço http://www.igogo.pt/pedras-brancas-artes-e-oficios-tradicionais/.

    Aí lhe dirão o preço e as condições.

    Saudações Pedestres

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  8. Maravilhoso! Ninguém desistiu?

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  9. Que eu me lembre, não houve desistências :)

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