quarta-feira, 4 de março de 2015

Extra: Trilho da Penoita à Lupa

Alguém me perguntou “Então não te cansas? Sempre a caminhar, e as mesmas paisagens....”

A resposta já sabem qual foi. Não vou relevar as vantagens pessoais, sociais e culturais, tal é a sua evidência, mas essa questão permitiu-me refletir acerca do modus vivendi e de sentir o pedestrianismo.

Nada mais falso, quando se afirma que os “trilhos” têm caracter repetitivo. As caminhadas são todas diferentes, basta “sermos e estarmos” diferentes. Tudo o que acontece é único e não se repete. Cada uma das caminhadas é uma situação totalmente nova, como se fosse a primeira vez.

E assim aconteceu, no dia 22 de Fevereiro de 2015, em Vouzela. Mais uma belíssima caminhada com os Solas Rotas. Cheia de história e histórias que serão intercaladas neste relato.

 No “Trilho da Penoita” encontrámos grande diversidade de dimensões culturais e paisagísticas. Em cada recanto vão surgindo, como “frames”, em harmonia, apenas contraposta pela camada de terra queimada e os tições que enferretam quem passa e nos envergonham.

O ponto de encontro e de partida foi o Parque das merendas da Penoita. Uma sala de espera cuidada, de aspecto limpo, sem ruídos e sem distratores, convidando quem passa a sentar-se nas mesas graníticas e a tirar fotos “até acabar o rolo”. Os carvalhos, dispostos paralelamente uns aos outros, ficam refletidos na água do lago e da fonte, também em pedra polida. Neste jogo de cores e luzes a copa das árvores parece suspensa no teto e mergulhada na água do lago, só não a tapando porque as folhas já caíram todas. De cor castanha clara e recortadas sem defeito, servem de tapete fofo, ali e acolá, ajudado pelo musgo verde e pelos troncos quebradiços que dão som a quem passa.



O dia não podia começar melhor a estes dezasseis Solas, não fora algum vento frio, fruto da época e a corrente de ar vindo da serra do Caramulo e do Vale do Dão.





O Zé Carlos lembrou que as linhas de água poderiam ser um obstáculo! O Mário arregaçou logo as calças não fossem ficar molhadas e assim ficou até ao fim da caminhada. Os Solas são de raça, aventureiros mas sem correr riscos desnecessários.



Depois da encosta, e já quentinhos, o trilho só foi interrompido quando se avistou a famosa e referenciada pia da Barca. O Adelino ofereceu-se logo para evidenciar as suas competências como marinheiro da barca de pedra e como modelo para fotógrafos que disparavam “sem destino” sobre aquele monumento e num momento tão insólito.



Mais acima, tomando o rumo de Covas, já no planalto, com uma paisagem diferente por ser ampla e de aspecto mais rural, encontramos outro megálito, conhecido pelos locais como a Casa da Orca. É um Dólmen, também designado por Dólmen da Malhada de Cambarinho.



A propósito da nascente do Rio Alfusqueiro, alguém lembrava os cuidados com a linha de água, desta vez, à guisa de brincadeira.

No caminho, os temas das conversas iam surgindo, em catadupa, resultado do nosso relaxamento, do entusiamo pela vida e da expectativa pela nova visita – a aldeia de Covas e do seu famoso exlibris – O Bicão dos Conqueiros.



A aldeia de Covas, de granito castanho, é tipicamente Beirã, tal como nos é apresentada nas fotografias: rústica, com casas agrestes, frias e presas nas rochas que lhes estão sobranceiras, encosta acima. Parece o cenário de um filme com desenho de rochas empinadas e proeminentes em segundo plano.



Nas imediações de Covas, e Espetado no solo, descobrimos o Bicão dos Conqueiros, um menir de 10 metros de altura, assim designado, pois aos olhos de quem o vê, parece que tem um bico.



A fome já nos atazanava o estômago e, talvez por isso, começamos a decifrar, em cada penedo, figuras estranhas e bizarras, desde um corno de bisonte até caras humanas e expressões animais. Estranho fenómeno! Serão visões?
Resolvemos espraiar numa lage e apreciar as iguarias que cada um tinha preparado para o almoço. Alguém lembrou que a chuva estava a ameaçar, o que não se concretizou, felizmente.

As energias dispararam, impulsionando-nos arriba acima, em modo corta mato, entre giestas queimadas até perto de uma outra aldeia – a Aldeia de Adsamo. Muito pitoresca por sinal, mas descaraterizada, pelo cimento e o alumínio. Pelo contrário, gostei de ver, porque me trouxe boas recordações, uma aldeã a lavar no tanque comunitário, com a roupa pousada a corar, por detrás das suas costas.










Já de regresso, quase sempre em descida por estradão, a paisagem continua a surpreender-nos pela imponência e singularidade. Destaco, a Norte, no Vale do Dão, uma montanha de pedras soltas parecendo resultado de uma onda gigante que deslizou montanha abaixo.



À chegada ao Parque das Merendas da Penoita, o mesmo cenário, agora, com a receção feita por pássaros a cantar, quase a adivinhar a chegada do bom tempo.



Dezoito Kilómetros feitos, mas, os últimos metros, à custa de umas voltas, em fila indiana, circundando o lago das sombras.





Antes de deixarmos Vouzela, fomos debicar algumas iguarias no Restaurante Palmeira que nos agradou bastante. Tiramos fotos dentro de um carro elétrico que ainda anunciava Santa Apolónia e assim continuamos a disfrutar o dia.





Fica a sugestão: “Carpe Diem”Aproveitem o dia. Façam as vossas vidas serem extraordinárias. (inspiração após ver o filme “O Clube dos Poetas Mortos” ).

Obrigado a todos os Solas Rotas. Venha mais uma ....

Adelino Ramos

3 comentários:

  1. Mas que bela descrição, sim senhora :)

    Abraços,

    Victor Parente

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    1. Obrigado Victor Parente.A descrição é fácil quando não faltam estímulos.

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