quarta-feira, 7 de junho de 2017

87ª Caminhada: Rota do Maciço Central à Lupa

No dia anterior, verificou-se da necessidade de uma apurada e longa preparação, uns mais do que outros, e outros mais do que todos e cada um tomou a que quis (auto medicação, portanto (faz mal, mas sabe bem)). Preparação que envolveu aturados e cuidados exercícios de levantamento de pesos (pequenos e cilíndricos). Quem foi de véspera, ficou instalado na Pousada da Juventude da Serra da Estrela - Penhas da Saúde (nunca vi, quer dizer, ouvi, tanto ressonar junto: 106... 4ever). Um desvio a Manteigas para a janta e, ainda e para alguns, um outro desviozinho (pequenino) à Covilhã, porque havia alguém (bem, éramos os quatro ( ;) )) que ainda não se sentia digamos, bem preparado, faltava-lhe algo... doce. Covilhã... Ai, a doce Covilhã!

Esteve um dia solarengo, calorento quanto baste mas não em demasia, com algumas nuvens que de vez em quando nos cobriam o Sol e um vento suave e fresco, o que a espaços se tornava agradável e permitia aliviar o calor e o esforço exigido. Excelente dia para uma caminhada, portantos.
Percurso limpo e sinalizado, o que facilitou o andamento, bem preenchido de bem boas, as mariolas, que nos en(caminhavam). Como é óbvio e mesmo nestas condições, quanto mais para condições piores do estado do percurso ou meteorológicas, para segurança, recomenda-se sempre o uso de GPS ou de um outro qualquer equipamento que nos trace a rota e auxilie na orientação. Percurso de grande grau de dificuldade técnica, muito exigente, devido aos acentuados declives, com muita pedra de médias e grandes dimensões (por vezes, enormes blocos de granito), que obrigava a uma redobrada atenção ao local onde se colocavam os pés (as mãos e o rabo - falo por mim), à falta de sombra, tornando quase que permanente a exposição ao Sol e em curtos troços, se percorrer linhas de riacho, que no dia estavam secos, mas nos quais o fundo é totalmente preenchido por pedra roliça solta de média e pequena dimensão, podendo-se quase dizer que o chão nos queria fugir por debaixo dos pés. Evitar realizar o percurso em época de chuva, devido a este, em algumas partes, se tornar escorregadio e, consequentemente, perigoso. Cuidados a ter a subir: fazê-lo a um ritmo calmo, cada um deve ir e saber o seu limite, com passos certos e pequenos, olhar para o chão para não tropeçar, fazer várias paragens, repousar, hidratar-se e todos obstáculos serão ultrapassados sem sofrimento e só ficará a memória de uma bela experiência. Cuidados a ter a descer: bem, fazer "sku" nunca fez mal a ninguém (talvez possa fazer às calças... ( ;) )).

Ditas as iniciais palavras da "praxis" e lá iniciamos o percurso: 30 solas, mais 4 patas. 

Depois de tanta preparação, o mais óbvio tinha de acontecer: enganámo-nos logo ao início e íamos começando pelo fim. Mas até poder-se-á dizer que foi propositado, um reconhecimento do terreno que teríamos de calcorrear nos últimos metros. Alertados para o sucedido, lá voltamos novamente ao ponto de convergência dos dois sentidos e continuamos agora no sentido certo. O nos embrenharmos pelo Covão d’Ametade, pelas suas entranhas, calcorrear os seus relvados é indescritível. Só estando lá, desafio-vos a isso: ide e deleitai-vos. Mas o que é bom acaba depressa e logo com um desvio à direita, passamos para uma das partes mais difíceis do percurso, obviamente a subir, a subir... ufa que já tenho a garganta seca e ainda agora começamos ( ;) ). Depois dos paradisíacos 600 m iniciais, em apenas 1,4 km passamos dos 1442 m para os 1827 m (mais de 27% de inclinação!). Observando, para quem o conseguiu, além de algo que acho sempre extraordinário quando isso é possível, de ir vendo o local de onde partimos cada vez mais lá no fundo, cada vez mais minúsculo (como são todas as coisas) e sempre com uma perspectiva diferente, e ia-mos ultrapassando como pontos de interesse, a Pedra do Equilíbrio que, dizem, parece desafiar as leis da gravidade (não me recordo de a ter visto, mas acredito que ainda lá esteja), o Cântaro Magro, o Covão Cimeiro, a Nave de Santo António (como é que ele terá aterrado ali e olhem bem lá no fundo: existe uma pequena capela), o Cântaro Gordo e a Lagoa dos Cântaros.

Descida enganadora para voltarmos a subir, agora até ao ponto mais alto do percurso a 1883 m, na qual começamos a perspectivar com mais detalhe duas das características mais notáveis do local, onde as suas zonas de planalto, aqui são maioritariamente, preenchidas por turfeiras (ecossistemas em que o nível da água se encontra à superfície e em que o encharcamento é prolongado promovendo o desenvolvimento de vegetação e a formação de turfa) e pelas salgadeiras (conjunto de charcos).

Com 2,5 horas de caminhada, pouco mais de 3,0 km (!) percorridos. Abrigados do vento, seguiram-se cerca de 25 minutos de merecido descanso e “retemperamento” de forças.

Pés ao caminho e algo de curioso e interessante começa a acontecer e porque íamos percorrendo aquilo que se pode chamar de uma linha de cumeada. Assim, íamos conseguindo vislumbrar paisagem de perder de vista de ambos os lados enquanto caminhávamos. Foi nesse vislumbre, mais precisamente do lado esquerdo que lá distante começou-se a observar, algo que seria obrigatório, pelo local onde estamos: a Torre, "onde a terra acaba e o céu começa", escreveu Luís de Camões (1524-1580), referindo-se à Serra da Estrela. O ponto mais alto de Portugal Continental, com 1993 m, onde (dizem) D. João VI (1767-1826) mandou erigir uma estrutura em pedra para completar os 2000 m. Só como curiosidade diria que esta torre (colocada naquela simples rotunda) é partilhada por quatro freguesias (Unhais da Serra, São Pedro, Loriga e Alvoco da Serra) de três municípios distintos: Manteigas, Seia e Covilhã e que as duas torres que mais se sobressaem, são antigos radares da Força Aérea Portuguesa (FAP), entretanto desactivados dessa função e quase deixados ao abandono, como infelizmente, quase toda aquela zona que deveria ser muito melhor aproveitada.

Continuamos a galgar montanha, agora sim em pleno maciço central, em mais descidas do que subidas, em direcção ao Covão da Clareza, e avistamos bem lá no fundo e ainda longe, a Lagoa do Peixão, onde iremos passar mais logo, e o Fragão do Poio dos Cães, um maciço granítico sobre a mesma. Pequenas lagoas, as chancas (não, não são socas), de águas límpidas e frescas, começam a aparecer, a nos tentar e a nos convidar a refrescar; o que já fazia falta, era bem merecido e desejo geral, acho... ai, se tivéssemos tempo... e calções!
Contornado o Covão (Lagoa) da Clareza (1832 m) rumamos, agora em mais subidas do que descidas, a um outro ponto alto do percurso (1878 m) e o mais afastado do ponto inicial do mesmo, denominado... Cume (mas quem terá tido tanta imaginação). É nesta parte do percurso que existe uma maior aproximação entre o percurso pedestre e uma estrada alcatroada: a EN339, aqui entre as localidades de Penhas da Saúde e o Sabugueiro. É por esse motivo, e pela continuidade da existência das tais chancas, que este é um dos locais mais concorridos e onde a presença de pessoas é mais notória. De resto, gente, nem vê-la (nem cabras ou outros animais campestres. Porque será, pergunto eu).
Local de cruzamento de outros trilhos (e de derivações deste), de vista esplendorosa e, mais uma vez, de se perder de vista desta feita de, precisamente, 180º graus (sem nos mexermos).

Ah, informação importante: 4,9 km percorridos em... 4 horas e, embora menos importante, aqui terminou o meu registo fotográfico. Porquê? Só eu é que sei e não vos digo ( ;) ).

Mais uma ficha, mais uma viagem, começa agora, por entre pedras, aqui e ali com umas descidas mais abruptas, a nossa descida até ao próximo destino e lá o começamos a avistar, a Lagoa do Peixão (ou da Paixão), a 1666 m de altitude, no cimo do Vale da Candeeira, talvez a mais bonita lagoa da Serra.
Lagoa do Peixão, onde se tirou a sempre emblemática foto de grupo. Reparem na cara de alguns e poderão vislumbrar algum desconforto... não, ninguém estava chateado com ninguém, não, não é de tristeza e não, não é do esforço... é que aquilo picava mesmo. E aquele senhor não é assim tão grande!

Contornamos a Lagoa e preparamo-nos, mais uma vez para descer, em declive acentuado em direcção ao belíssimo Vale da Candeeira (1450 m). É um vale suspenso, também de origem glaciar, sobre o Vale Glaciar do Zêzere, e corre perpendicular a este. O seu nome tem origem na quantidade de fogueiras, quando no passado se ganhava a vida, além da pastorícia, a fazer carvão pela queima da raiz da Urze. Seguimos nós, então pelo Vale da Candeeira e progredindo ao longo de um ribeiro, a Ribeira da Candeeira. Chegados à Ponte Bolota, a atravessamos, para um pouco mais à frente, a atravessarmos de novo, agora sobre umas pedras estrategicamente dispostas. Claro... alguém tinha de meter o pé na poça e alguém tinha de ser armar em cabrito.

Para ganhar ânimo e se fazerem os últimos quilómetros, com o já deslumbrante o Vale Glaciar do Zêzere em fundo e antes das últimas subidas, os três cântaros aparecerem para se despedirem e agradecer pela visita e, se nos voltarmos para trás, lá se consegue distinguir claramente os cântaros Gordo, Magro e Raso. Havemos de voltar a vê-los.
Começamos, finalmente, a derradeira subida pela vertente do Cântaro Gordo até que começamos a ver o Vale Glaciar do Zêzere e do outro lado os Poios Brancos. O enorme comprimento do vale glaciar deve-se ao facto de ser alimentado (à época) pelas línguas da Nave de Santo António, Covão d'Ametade, Candeeira e Covões. A espessura da língua de gelo atingia na parte montante do vale cerca de 300 m, o que pode ser confirmado pela existência de moreias na Lagoa Seca (1390 m).
A partir daqui o caminho que nos leva de regresso ao Covão d'Ametade, era já nosso conhecido, fácil e logo estávamos a concluir esta heróica empreitada "solada desgastada". 

Denota-se claramente, que a Serra da Estrela tem todo o interesse e esplendor tanto de inverno como no verão. A visitar, sempre. Se há uma certeza que eu retirei desta caminhada, que muito me fez suar, é que esta foi apenas a primeira vez que percorri estes caminhos. E lá voltarei sem dúvida e com a mesma vontade.

Como pontos mais caricatos da caminhada, relembro apenas 4 "momentos paparazzi": três deles, certos indivíduos que foram "apanhados" num momento mais incauto e desprotegido a observar a paisagem, e outro, que eu não sei quem fui, que, de um momento para o outro, depois de umas inevitáveis escorregadelas de "sku" por umas pedras mais atrevidas que nos deparamos durante o percurso, verifica da existência de uma aragem estranha e fresca vinda de baixo para cima. Felizmente, e comum entre as 4 situações, ninguém se constipou: nem eles, nem os ditos. A ver vamos o que aparece naquele malfado vídeo de apanhados.

Só por curiosidade e permitam-me um registo pessoal: com mais esta caminhada realizada, atingi os 198,6 km's calcorreados com os Solas Rotas (registo não oficial). As solas ainda são as mesmas, mas hei-de gastar estas e muitas outras mais. A todos, sem excepção, obrigado pelo fim de semana, pela caminhada e pelo gosto (prazer é outra coisa) da Vossa companhia. Por mim, na próxima lá estarei, de certeza. Com Certeza.

Bendita joelheira elástica. 

Daniel Lopes SR 169












MAPATRILHOELEVAÇÃO
http://www.manteigastrilhosverdes.com/uploads/pr_5_mtg_por_v2.pdf
PARTICIPANTES CONFIRMADOS FINAL (04 JUN - 19h)
Sérgio, Mário, Daniel, Gabriel, Raquel, Cristina, Catarina, Victor, Alberto, Elsa, Fernando, Paula, Carla, Cláudia, Sérgio Silva
( 30/ 30 )
PARTIDALOCALGPSKMGRAUMAPA
2017.06.04
10:00
Covão d' Ametade

N 40º 19' 41.1''  W 7º 35' 12.4''
40.328078   -7.586792

 12DifícilLink
MAIS INFORMAÇÕES
Percurso: Rota do Maciço Central
Local: Serra da Estrela
Partida/Chegada: Covão d' Ametade
Estacionamento: Sim
Rede Telemóvel: ?
Âmbito: Paisagístico, Cultural, Ambiental
Tipo: Circular
Sinalização: GPS
Pontos Água:  ?
Exposição Vento/Solar: Alta
Almoço: Volante
Regras: Ler Aqui
Sugerido: Solas Rotas
Ponto Encontro: Covão d'Ametade
Pontos de Interesse: Rio Zêzere, Covão d'Ametade, Vale Glaciar do Zêzere, Lagoas 
Dicas: Água, Roupa adequada às condições atmosféricas; BotasBastão,
Reconhecimento: Sem reconhecimento
Outras informações: Manteiga Trilho VerdesSerra da EstrelaCâmara Municipal de Manteigas
A visitar: Pontos de interesse

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