terça-feira, 27 de junho de 2017

1º Tour: Picos da Europa (Espanha) à Lupa

Estamos vivos!

Os sete e os picos da Europa, parece título de um livro e bem poderia ser, pelo menos foi uma aventura. E acho que nenhum de nós estava à espera do que nos esperava. Digo já que não é caminhada para “meninos”, é preciso ir a contar com muita exigência física e algum perigo.

Éramos sete: O grande chefe, com o seu lenço amarelo fluorescente e óculos de sol, o homem das cuecas descartáveis (ou cuecas hóstia, para poupar no peso), o homem da lata de atum, o casal dos três quilos de laranjas e bananas, o homem do filtro de osmose inversa (que nos safou de morrer à sede) e bem... e eu que achava que ia ser canja e me borrei de medo dos precipícios.

Começamos animados, pela Ruta del Cares, planinho planinho, com o rio Cares no fundo e mal sabíamos o que vinha a seguir. A determinado ponto da Ruta de Cares, aparece a placa “Canal de Trea”. Eu atrevia-me a dizer que o nome apropriado seria “ Canal da Tareia” tal foi a dificuldade em chegar lá em cima. Ao fim de horas a subir, sempre na esperança de chegar ao fim, aparece-nos Ricardo, o nosso anfitrião do Abrigo da Vega del Ario, que preocupado por não aparecermos, fez-se ao caminho para nos encontrar. Pensávamos assim que já estávamos a chegar ao destino, mas puro engano, ainda tivemos que penar um bocado até chegar à planície, onde estava o abrigo. Planície mágica que nos apareceu no meio da neblina, ponteado de vacas que tranquilamente pastavam por lá. Chegámos com fome e sede e vontade de tomar um banho. Banho este que foi tomado ao ar livre, com uma geringonça que nos permitia ter 5 l de água quente se dessemos à manivela! Muito bem tratados por Ricardo, lá recuperamos forças para o dia seguinte, a achar que o pior já tinha passado...  puro engano...

O segundo dia começou com algum sol, mas podemos dizer que foi sol de pouca dura. Partimos do refúgio a contar ver os lagos de Covadonga. Seria o dia mais fácil em termos de trilho. Tranquilamente partimos. Mas rapidamente fomos apanhados pelo nevoeiro que teimou em nos acompanhar quase até ao fim do dia. Percorremos prados, colinas, vimos casinhas de pastores e rebanhos, mas tudo numa tonalidade lusco-fusco, esfumados na neblina. Fugimos à morrinha no café dos lagos, apesar  dos lagos “ nem vê-los” e afogamos a frustração numas cañas e uns bocadilhos de tortilha. Mais satisfeitos e de barriga cheia lá fomos nós a caminho do refúgio de Vegarredonda. À medida que subímos deixámos o nevoeiro para trás. Ali esperava por nós, depois de nos ultrapassar com os seus cavalos, o ilustre Javi, personagem sem descrição possível, um pouco anti-social, mas delicioso e que nos alegrou o resto da noite. Com ele, o amistoso Dani, que nos deu algumas dicas para o dia seguinte. Vimos um pôr-do-sol difícil de esquecer, dos mais bonitos que já vi, sobre o nevoeiro que cobria a paisagem nos locais mais baixos.

O Terceiro dia foi mais duro. Deixamos o Dani e o Javi e começámos a subir, sob nuvens, ameaças de chuva e trovoada. Mas pouco mais do que ameaças foram, e não nos incomodaram muito. Após a subida upa upa, sucederam-se paisagens despidas, de rocha e gravilha, imensas, e imponentes, caminhámos ao longo de pequenos trilhos de terra batida e gravilha, atravessámos pequenos neveiros, andámos agarrados às rochas em pequenas escaladas. Num sobe e desce sobe e desce durante quase um dia, pensávamos que a descida final seria suave... engano... Só depois de uma descida a pique, quase a fazer  “sku” na gravilha, chegámos à zona verde do trilho onde a paisagem mudou, suavizou em curvas de verde a caminho do bosque. Ao fim de alguns quilómetros, entrámos num bosque denso, mágico, com nuances de luz e sombra. Quase, quase lá, já era tarde quando chegámos ao refúgio de Vegabaño. Apesar de os donos serem pessoas reservadas, o refúgio era mágico, cheio de pinturas, de fadas, duendes, castelos e florestas magicas. As paredes  no seu interior eram verdadeiras obras de arte. A sala tinha estantes coloridas com livros de herbanária e outros livros a fazer lembrar ciências ocultas. Fomos dormir com os elfos como companhia.

O quarto dia podemos dividi-lo em duas fases: primeiro a fácil e depois a difícil.  A primeira metade foi só para enganar, andámos no meio da floresta, do verde, atravessámos aldeias maravilhosas, almoçamos numa esplanada ao sol. Ganhamos força para os quilómetros que faltavam. Mas  nada nos podia preparar para o que aí viria. Voltamos a subir, ainda no meio do verde, andámos mais um pouco pelo bosque, até chegar a um planalto verde, onde iria acabar  o passeio e começar a aventura. Continuámos a subir, agora mais a pique. Foi aí que  conhecemos um personagem tirado dos livros, com boxers, meias de lã e chapéu de explorador. Acompanhado pela sua  companheira em excelente forma, “meteu-nos num saco” e mostrou-nos que o caminho era por onde nós não achávamos possível seguir. Aí alguns mais acagaçados que outros, á beira do precipício continuamos a subir. Chegámos ofegantes lá em cima, uns tranquilos outros a agradecer ter lá chegado com vida. Pois pois, o abrigo era já ali, não fosse faltar escalar o que faltava, pois caminho era coisa que dificilmente se podia dizer que existisse. Foi ao anoitecer, estourados, felizes pela paisagem que nos esperava, que chegamos ao refúgio de Collado Jermoso. Vivos!

No quinto dia , após um trilho, estreito, à beira do precipício passámos rapidamente para uma zona mais fácil de percorrer. Mais uma vez paisagem de rocha, terra e gravilha e nevoeiro nas terras baixas. Caminhámos banhados pelo sol, tranquilamente ao longo das colinas rochosas  até chegarmos perto do abrigo da cabana Verónika, onde esperávamos reabastecer de água e de caña, claro. Já com o refúgio na mira,  a nossa vida complicou-se de novo, em escaladas de sobe e desce em rochas fendidas, cheias de buracos, a necessitar de uma perícia acrescida. Sempre a ver o refúgio, aquela subida parecia nunca mais acabar. Finalmente chegamos ao refúgio mais emblemático dos picos, uma antiga bateria antiaérea de um porta aviões da segunda guerra mundial, onde vive um guarda permanentemente, mesmo no inverno, sob temperaturas negativas. É um abrigo muito peculiar, com uma vista fabulosa. Funciona como refúgio de emergência.

Depois de almoço deixámos a cabana Verónika rumo a um dos troços mais difíceis do nosso caminho, onde tivemos que descer agarrados a cabos, a laia de um rappel amador, passando ainda  por um pequeno neveiro.  Ao fim de uma a duas horas a descer “meia dúzia” de metros,  chegámos ao sopé, os sete aventureiros. Prosseguimos para o abrigo de Vega de urrielu, o maior dos abrigos por onde passámos mas também o mais impessoal, onde nos pagaram a luz enquanto jantávamos.

Sexto dia, partimos todos já com vontade de chegar a casa, os dias de caminhada já nos pesavam nas pernas, estávamos todos bastante cansados. Mais uma vez passámos por troços onde tivemos quase que fazer alpinismo, andámos mais uma vez agarrados a cordas á beira do abismo. Pelo caminho parámos no refúgio de los Cabrones, onde comemos umas tapas com pão quase pedra e onde as cabras me tentaram roubar a minha pulseira.

Depois de mais umas peripécias e dificuldades  chegamos a uma cota mais baixa, mais verde e mais suave. Mas ainda nos faltava a descida até Bulnes, uma verdadeira prova aos nossos joelhos. Sempre a descer chegamos novamente ao Cares  e com a Ruta del Cares do nosso lado esquerdo acompanhamos o rio até chegar ao nosso destino.

Cansados mas felizes, chegámos a Poncebos

Foi um trilho difícil e com alguns perigos, denominado pelos espanhóis como um dos mais exigentes do mundo.

Estreitámos laços, funcionámos como equipa, conseguimos manter sempre o bom-senso. Ao nosso passo fizemos tudo, privilegiando a segurança.

Colecionámos momentos hilariantes, conhecemos pessoas especiais, vimos paisagens que poucos tiveram já o privilégio de ver. Foi uma aventura.

Os sete e os picos...

Alexandra Castro SR39
























MAPATRILHOELEVAÇÃO
http://www.manteigastrilhosverdes.com/uploads/pr_5_mtg_por_v2.pdf
PARTICIPANTES CONFIRMADOS FINAL (17 JUN - 19h)
Sérgio, Gabriel, Sérgio Silva, Alexandra, Fernando, João Pedro, Sara
( 14/ 30 )
PARTIDALOCALGPSKMGRAUMAPA
2017.06.10
08:00
Poncebos

N 43º 15' 25.6''  W 4º 49' 58.8''
43,257106   -4,832988

 90Muito DifícilLink
MAIS INFORMAÇÕES
Percurso: Travessia dos Picos da Europa
Local: Picos da Europa (espanha)
Partida/Chegada: Poncebos
Estacionamento: Sim
Rede Telemóvel: Fraca
Âmbito: Paisagístico, Ambiental, Alta Montanha
Tipo: Circular
Sinalização: GPS
Pontos Água:  Poucos
Exposição Vento/Solar: Alta
Almoço: Volante
Regras: Ler Aqui
Sugerido: Solas Rotas
Ponto Encontro: Poncebos (Espanha)
Pontos de Interesse: Rio Cares, Ruta de Cares, Refúgios, Lagos de Covadonga, Aldeias
Dicas: Água, Roupa adequada às condições atmosféricas; BotasBastão,
Reconhecimento: Sem reconhecimento
Outras informações: El Anillo de Picos

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